Por que as crianças brincam. Por Aurea Reis

Seja o brinquedo industrial, pedagógico, eletrônico, ou de qualquer outra forma, a criança gosta é de brincar, de transformar qualquer objeto em brinquedo. Essa invenção infantil que nos acompanha há muito tempo está presente em todos os lugares onde exista uma criança. E elas não precisam de muitos recursos ou de lugares específicos, brincam em qualquer situação, com qualquer instrumento, são inventivas, mudam a forma do que vem, dão outros nomes e outros significados, e fazem a brincadeira ficar ainda mais divertida. Mas por que será que elas brincam tanto e com tanta facilidade?

 

O universo infantil é permeado por inúmeros acontecimentos e emoções que estão a sua volta, sejam eles familiares ou sociais e nem sempre é possível pra criança entender estes acontecimentos, discernir o que é bom do que não é, aproveitar o que é prazeroso e se proteger das angústias. Como explicar a um bebê que sua mãe precisa se ausentar durante alguns períodos, mas que ela volta em seguida, ou que seu pai, apesar da voz grave, o ama e está fazendo o melhor para o filho? Quanto mais jovem a criança mais limitada sua compreensão do universo a sua volta e por mais que os pais se dediquem, sejam bons e amáveis, não é fácil passar essas informações para seus filhos. As crianças mais velhas, que já tem uma capacidade de entendimento maior, também passam por ajustes pessoais, seja em casa com os pais, seja nos meios sociais, a escola, a rua que lhes cobra uma conduta que se adeque ao outro.

É aí que entra o brincar e o brinquedo. Para tornar possível o entendimento desse complexo mundo a sua volta a criança usa de artifícios que a ajuda a transitar entre a realidade do mundo e a sua realidade, busca um campo intermediário onde às vezes “sou eu”, às vezes “sou o outro”, às vezes “sou isso”, às vezes “aquilo”, às vezes as coisas são o que são e às vezes são o que eu preciso que elas sejam. Essa manipulação do mundo o torna compreensível, fácil, controlável, dentro de um universo incontrolável de emoções.

O bebê brinca com seu paninho, com um boneco, ou com o que tem a mão, joga fora, pega de novo, aparece, some e vai entendendo que o que sai de sua vista não desaparece totalmente, volta, às vezes demora, às vezes não. Esse processo de manipulação do seu mundo o faz entender os movimentos ao redor. Ainda muito novinho já começa a controlar suas emoções, evitando o sofrimento com a criação de um mundo alternativo. Com essa brincadeira simples aprende as texturas, as cores, se encanta pelos movimentos diferentes do que vê, aprende rápido, com facilidade. Aprende a diferenciar o que é real e o que ele cria, e toma muito gosto por criar.

            A criança usa a brincadeira como uma forma de expressão e de comunicação. Ao brincar ela se coloca fora do espaço e do tempo, cria um campo imaginativo, usa o brinquedo como uma ponte entre o que consegue vivenciar e a realidade a sua volta. Por isso cria universos parecidos com os seus e ao mesmo tempo tão diferentes. O brinquedo é uma representação da realidade que a criança precisa enfrentar, como se pudesse colocar do seu tamanho o que ela vê tão grande e assim expressar suas dificuldades através de uma visualização dos problemas, um rearranjo da cena. Um teatro surreal.

Aurea Reis é Psicóloga clínica, em Ribeirão Preto. Trabalha com atendimento a crianças e adultos, ministra palestra para gestantes em hospitais da região, já escreveu diversos artigos relativos a família com enfoque na infância e família.

Áurea Nascente Junqueira Reis

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